terça-feira, 11 de outubro de 2016

Namorados - por Rubem Alves

Não é segredo nenhum que eu sou muito fã do Rubem Alves.
Ele sabe descrever de forma legivel, simples e precisa tudo o que sinto quando em mim as palavras faltam.
Ainda mais nessa época em que estou, da qual me encontro sem certezas, onde todas as teorias e versões parecem não mais me vestir. Creio que por isso a pausa na escrita. A pausa de levantar questionamentos, nem tudo precisa ser pensado.
Lendo um de seus textos ontem a noite, me senti muito tocada, sendo que até pensei "É isso que estou tentando dizer".
E ai, mais uma vez Rubem Alves descifrou-me sem nem ao menos conhecer-me.
É confortante saber que existem alguns que sentem igual a gente, ainda mais se for um escritor maravilhoso desse.
Por isso hoje passarei a vocês esse texto, que tanto me fez.

Namorados 
Rubem Alves no livro TEMPUS FUGIT

Shakespeare poderia ter encontrado um outro fim para a estória de Romeu e Julieta. Mas não quis. Foi cruel. Preferiu matá-los. Um final feliz, como as novelas, não teria sido melhor? "Casaram-se e foram felizes para sempre..." Mas, das novelas ninguém se lembra mais. E de Romeu e Julieta ninguém se esquece. Porque Romeu e Julieta é uma estória escrita em nossa própria alma. Nós.
Parece que o amor só é eterno quando sacrificado ainda jovem. "Infinito enquanto dure" por não "eterno, posto que é chama".Depois de apagada a chama, fica a memória da sua luz. Como o crepúsculo . O amor é entidade crepuscular. Seu dia é curto. Como aquela flor que tenho no jardim, "Glória da Manhã". Abre-se quando o sol nasce, azul celeste, mas ao meio-dia já está sulcada de listras roxas, anunciando que ás duas da tarde já terá anoitecido.
e namoro tem vida intensa e breve. E é por isso que é tão belo e a sua memória - saudade - mora e e dói em nossos corpos. Fica como nostalgia de um amor que durasse sempre. Romeu e Julieta tinham de morrer, para que sua estória dissesse a nossa verdade e quiséssemos sempre ouvi-la de novo.
Ah! Como seria bom se fôssemos sempre jovens, puros e ardentes! Então o mundo inteiro seria luminoso e viveríamos a cada dia a promessa suprema da religião: a ressurreição do corpo. Corpos enamorados são corpos ressuscitados.
Mas o namoro está ficando coisa cada vez mais rara. Porque ele só existe no espaço rarefeito da distância. É a distância, representada no drama de Shakespeare pela morte, que o torna eternamente belo. Há a estória da menina e do pássaro encantado. "Preciso ir", dizia o pássaro. "Não vá", respondia a menina, ingênua. E ele respondia: "Vou para que o amor retorne. Você não entende que só sou encantado por causa da saudade?" O namoro acontece somente na dor da distância, quando os dedos se tocam de leve. "Os amantes", dizia Rilke, "não estivesse o outro a ofuscar-lhes a visão, sentiriam a obscura presença e se espantariam...". O amor desesperado de Fiorentino Ariza pela Firmina Daza, do Gabriel Garcia Marquez.
Não, não era na erótica do toque onde o amor crescia. Era na dor da distância, onde a saudade mora.
O erótico precisa da presença fugida de quem se ama. Quem tem perdeu...Que teria sido do amor eterno de Abelardo e Heloisa, se não fosse o seu fim, os dois perdidamente apaixonados, eternamente separados pelas paredes de pedra dos conventos? Roland Barthes diz que o erótico é o pedacinho de pele que aparece entre o fim da manga e o princípio da luva, a nesga de carne que se mostra entre o fim da calça e o começo da blusa. Quase nada é mostrado. Tudo é sugerido. Por essa fresta estreita se abre o mundo infinito da fantasia.
No namoro fazemos amor com nossas fantasias, encontramos o fugido objeto da nossa busca inconsciente. Fernando Pessoa:"Ninguém a outro ama senão o que de si há nele ou é suposto..." Ouvi pintores chineses explicarem das razões da presença constantes de brumas e neblinas em suas telas. Porque é ali que se aloja o mistério (a nesga de pele entre a calça e a blusa...). A fantasia se mostra no não dito, no não mostrado. Ante a fundura sombria dos bosques (Frost) a imaginação se ergue, erotizada , e sente que ali mora a beleza. O que não acontece com a arte que diz tudo, pornografia, ofuscando a imaginação de seus detalhes: Realismo. O que também não acontece com a linguagem científica, pornografia por vocação, incapaz de conviver com as neblinas, em busca permanente de visibilidade total, abrindo prega por prega, dobra por dobra.Não foi por acidente que Mallarmé e Debussy tenham preparado o poema e a música mais cheios de neblinas e brumas para, neste espaço, acontecer a dança erótica do fauno e das ninfas.
E me veio a estranha hipótese sobre as relações entre o namoro e a política. Rilke, falando da arte, sugeriu que ela era um suspiro utópico que aponta para o objeto último e inalcançável do nosso desejo. Mas não será isso mesmo que se encontra na experiência fugida do namoro? A utopia de que o universo inteiro venha a se amar.
No 1984, de Orwell, quando todos os quartos do apartamento estavam permanentemente vigiados eletronicamente pelos olhos sempre abertos do "Grande Irmão" (noutros tempos eram olhos sempre abertos do "Grande Pai..."), o que impedia que Winston pudesse abraçar a mulher amada - crime supremo! - eles foram para o campo, e sob o céu aberto se entregaram um ao outro. E ele compreendeu que aquele tinha sido um ato político. Todo ato de amor é uma denúncia do absurdo do poder. O mundo poderia ser bom... E fui, então, assaltado pela curiosa sugestão de que o que está em jogo é uma troca de namorados.
Os que entregam a volúpia do poder é porque não mais são capazes da volúpia do amor. Quem sabe maridos teoremáticos, esposas paradigmáticas. Mas namorados? Duvidosos. Quem está possuído pelo amor não se move bem nas coisas do poder...


E é isso por hoje
Bye Bye

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.